01/10/2010

Eu não posso votar

Eu não posso votar.

Não posso votar porque isso pressupõe que eu tenha vontade e que posso fazer algo, porém a experiência e a observação atenta de mim mesmo me mostra que eu estou dormindo, mostra que em 99% do tempo não tenho consciência objetiva, meramente existo, como uma máquina, não “eu” mas “isto” e “isto” não pode fazer, muito menos ter vontades.

Verifico a cada dia que as coisas simplesmente acontecem seguindo uma lei universal do acidente, embora muitas vezes eu me pegue na ilusão de que fiz algo, uma análise mais profunda revela que não, tudo é mecânico, engrenagens de uma máquina maior da qual não tenho nem idéia do seu real tamanho ou funcionamento.

Desesperado em relação a minha situação procuro uma forma de acordar, de me libertar dessa prisão na qual estou preso. Tento deter o fluxo de pensamentos inúteis por poucos minutos e falho, tento acender a chama da consciência me lembrando de ensinamentos sagrados sobre a essência e eles duram até a primeira irrelevância do mundo mundano me incomodar, quando interpelado em uma discussão não consigo nem mesmo me dar conta o que estou fazendo, depois de argumentar e contra argumentar de maneira brilhante, me dou conta de que nem sei porque estou discutindo, tomado subitamente pelas emoções em cada uma dos meus atos e palavras, pouco ou nada reflito de forma inteligente sobre cada uma das minhas respostas ou atitudes em geral, respondo a tudo sem pensar com o minímo de profundidade, constantemente fico bravo, triste, puto, depressivo, vingativo humilhado e coloco a culpa no outro, como se o outro tivesse poder sobre o que sinto, eu é que me coloco nesses estados mas mesmo assim dou desculpas esfarrapadas e continuo me enganado achando que meu estado de humor e em geral tem relação com outros e não com minha minhas próprias limitações, projeto meus defeitos no próximo e ao invés de aceitar quero quebrar o espelho, como sem pensar na comida, respiro sem pensar no ar, penso sem pensar, vivo sem compreender a vida, minto. Minto muito, nem tanto para os outros, mas principalmente para mim mesmo, imagino ser o que não sou e fazer o que não faço. Sou incoerente defendo opniões contraditórias sem nem mesmo me dar conta, como se ao invés de um eu, vários pequenos eus se debatem dentro de mim sem que eu me de conta a maior parte do tempo uma ilusão constante de consciência e unicidade, destruída pelo simples gesto de perceber minha própria mecanicidade.

Horrorizado descubro que minha única saída é gastar toda minha energia disponível tentando lembrar de mim mesmo, mesmo que dure poucos segundos, a lógica e a experiência mostram que com prática e com o tempo os resultados se tornam melhores e mais duradouros. Para reforçar essa lembrança me envolvo com grupos com o propósito de despertar a consciência, uma escola de magia, um templo sagrado etc.

Ao reaizar uma magia sinto um vislumbre do que é fazer, e tenho uma visão ainda maior sobre como nada posso fazer sem ajuda de mentes superiores, se pudesse fazer algo, não precisaria de magia.

A cada dia constato que a maioria esmagadora da minha energia é gasta só pra manter a máquina funcionando exatamente como está, e que o potencial dela é praticamente infinito, por isso não me dou ao luxo de gastar minha energia aonde em nada surtirá efeito para a meta maior.

Acordar. Ser e finalmente fazer.

Por isso não voto, não tenho poder para alterar nada, se o que está acima está abaixo, fica claro pra mim que meu voto não tem poder de mudar, minha vontade não vai prevalecer sobre nenhuma das outras máquinas, porque eu mesmo não consigo mudar, quem sabe ao atingir um degrau superior de consciência eu possa fazer algo, juntar o número de pessoas em cada estado minimamente pra formar um novo partido, mas veja só como sou uma máquina imbecil, não consigo nem mesmo me lembrar de respirar direito e quero galgar perto de 300 mil assinaturas distribuídas em nove estados.
O gasto energético na escolha do candidato e nas discussões sobre politíca é enorme, e quanta energia eu gastei nisso nessas eleições para logo após dar um tapa na testa e dizer, máquina burra, porque despediçou tanta energia preciosa, porque caiu nessa de discutir por discutir de novo ? ACORDA !!! ACORDA !!! ACORDA !!!
A energia que gasto aqui é investimento calculado, pois para escapar da prisão precisamos de ajuda, de quem já escapou e pode ensinar como fazer e de quem está dentro e quer fugir, mas a realidade assim como a prisão não pode permitir que todos fujam.

Por isso, eu não posso votar.

Até lá, vou continuar pagando os 2 reais de multa.

Gabriel Avelar

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